15 de fevereiro de 2022
Assim como a segunda quinzena de 2020, que jamais esquecerei, pois foi quando o mundo parou por conta da pandemia de Covid-19, o dia 15 de fevereiro de 2022 também ficará para sempre na memória. Esse dia marcou minha história e a de muitos petropolitanos que sobreviveram àquela tragédia.
Algumas semanas após o ocorrido, uma pessoa fez o seguinte comentário: “Não podemos medir a dor de ninguém, pois cada um tem a sua e sabe por que está sofrendo.” Essa frase me marcou profundamente, assim como uma dita por Dom Gregório Paixão, OSB, arcebispo de Fortaleza, à época bispo de Petrópolis. Ele afirmou, diante das autoridades em meio a um momento de conflito, que não podíamos viver sob a “síndrome do céu azul”.
A Dor e a Esperança dos Sobreviventes
São duas frases que carregam em si verdades que nós, sobreviventes daquela tragédia, vivemos dia após dia.
Quão difícil é sair de casa depois de quase 20 anos de luta para construir uma residência digna para a família e, em questão de minutos, ter que deixá-la e não poder voltar. Ou quão difícil é olhar para trás e não ver mais aquilo que se construiu ao longo de uma vida ou, ainda, o que se herdou do fruto do trabalho e suor de seus pais.
Mas, ainda mais difícil é olhar para trás e ver que muitos perderam suas vidas, deixando apenas a saudade e a lembrança do que viveram. É ainda mais difícil quando percebemos que famílias inteiras foram soterradas e sua história terminou ali, sob a lama e os destroços.
A Síndrome do Céu Azul: Uma Realidade Dura
Para quem sobreviveu, quão doloroso é recomeçar, refazer planos, depositando toda a esperança em Deus e no apoio de amigos e familiares, que ofereceram seus ombros naquele momento de desespero e nos dias seguintes.
Não é fácil, especialmente para aqueles que, além da casa conquistada com tanto esforço e sacrifício, perderam entes queridos, familiares e amigos de longa data, cujas histórias se entrelaçavam. Amigos e familiares que muitas vezes foram cúmplices nas conquistas, nas alegrias e nas dores, mas que estavam ali, lado a lado, oferecendo apenas o ombro para o choro e sendo um braço para amparar e ajudar a levantar das quedas.
Por isso, cada sobrevivente carrega dentro de si sua própria dor, sua saudade e, ainda que por vezes pareça impossível acreditar que as coisas possam melhorar, mantém viva a esperança.
Recomeços em Meio à Destruição
Diante da realidade pessoal que cada sobrevivente de uma tragédia vive, seja ela natural ou causada pelo homem, cada vítima ainda tem que enfrentar as tragédias seguintes, marcadas, entre outras coisas, pela síndrome do céu azul. Pois, passados os primeiros dias e semanas, quando os poderes públicos e toda a sociedade estão mobilizados, tudo vai voltando a uma normalidade e a tragédia passa a ser tratada dentro de uma burocracia, onde cada vítima é tratada por um número em um formulário em meio a milhares existentes da tragédia atual e de outras ocorridas em tempos passados.
A Luta por Justiça e Reconstrução
A síndrome do céu azul surge em meio à esperança dos sobreviventes, acreditando, com esforço sobre-humano, que as coisas vão melhorar, que as obras serão realizadas, que vão receber toda a ajuda possível e que necessitam. Como dizem, a esperança é a última que morre, mesmo que a síndrome do céu azul já esteja predominando.
Olhar para a realidade, mesmo com esperança, é constatar obras fundamentais que jamais foram realizadas, ou porque as poucas iniciadas permanecem inacabadas, ou mesmo porque as finalizadas foram insuficientes. Além disso, cada sobrevivente e a sociedade como um todo, mesmo que não queiram enxergar, constatam que muitos, ignorando os riscos das mudanças climáticas e a urgência de políticas públicas voltadas para habitação, vivem como se nada tivesse ocorrido, ou como se não fosse ocorrer com eles, ou ainda, com total sentimento egoísta de que “não foi comigo”.
Solidariedade em Tempos de Crise
A falta de políticas públicas que busquem solução para a crise climática, para os problemas ambientais, como a coleta seletiva, esgoto a céu aberto ou despejado em córregos e rios, para a falta de habitação popular, para uma educação, etc., é a certeza, talvez, de que ainda estamos longe de encontrar uma saída para os problemas socioambientais.
Relembrar o que aconteceu no dia 15 de fevereiro e 20 de março de 2022, e nas tragédias anteriores em Petrópolis, e nos dias seguintes — quando Estado e Município não se entendiam e o Governo Federal anunciava o envio de milhões para obras necessárias — não significa viver do passado nem da tristeza. Pelo contrário, deve servir como combustível, como uma força que nos impulsiona a lutar por dias melhores. Lutar por políticas públicas eficazes, por obras de infraestrutura e por medidas de segurança, especialmente para aqueles que vivem em áreas de risco.
Desafios da Burocracia Após a Tragédia
Somos sobreviventes de tragédias naturais e da tragédia burocrática, onde cada pessoa, cada família se torna apenas um número na engrenagem do sistema administrativo brasileiro. Um sistema que, mesmo no século XXI, ainda se baseia no preenchimento manual de formulários para, só depois, digitalizá-los e inseri-los no sistema.
Além disso, continuamos sendo vítimas de uma terceira tragédia: a dos oportunistas de plantão. Aqueles que se aproveitam da boa-fé das pessoas, seja das vítimas ou daquelas que querem ajudar, para se beneficiar ou lucrar em meio ao sofrimento alheio.
A Importância da Esperança e da Fé
Escrevo este relato como alguém que viveu o dia 15 de fevereiro. Como alguém que, em meio à lama, à água e aos escombros, precisou deixar o Alto da Serra e buscar um local seguro para salvar sua esposa e seu filho. Como alguém que, nos dias seguintes, viu-se dividido entre olhar para a própria casa e história desmoronando e a necessidade de cumprir com suas responsabilidades profissionais.
Mas, em meio a tanta dor, corações aquecidos pela presença de Deus se fizeram presentes. Pessoas solidárias secaram lágrimas, ofereceram abraços, pegaram no colo aqueles que precisavam e abriram suas próprias casas para abrigar famílias inteiras, cujo único alicerce, naquele momento, era a fé.
Lições Aprendidas com a Tragédia de Petrópolis
Escrevo como alguém que se viu como vítima, descobrindo que, além da tragédia natural, cada sobrevivente vive a tragédia burocrática, sendo obrigado a percorrer diversos órgãos públicos para receber aquilo que lhe é por direito. Muitos, ao fazer a sua via sacra por departamentos públicos, ainda se veem diante de um não, de uma negativa, pois a legislação é feita para atender aqueles que possuem até um determinado valor salarial.
Como a lei é uma letra imposta às vezes por interesses populistas e medíocres, os legisladores e governantes esquecem daqueles que ultrapassam o valor imposto pela lei, pois, para sobreviverem, são obrigados a trabalhar em mais de um local para que possam sustentar sua família. Muitos que perderam suas casas e entes queridos não tiveram nenhuma ajuda, sendo obrigados a reconstruir tudo com as próprias mãos, contando com alguns amigos, familiares e a esperança em Deus.
A Gratidão e a Luta Contínua
Hoje, a gratidão por quem nos socorreu é eterna. Contudo, com a firmeza e determinação de uma mulher (minha esposa) e a compreensão de nosso filho, que não medem esforços para manter vivos os sonhos de 30 anos atrás, seguimos lutando. Lutamos por cada direito, pelo nosso pedaço de chão e, mesmo diante de tantos recomeços e ajustes nos planos, mantemos a esperança de que tudo dará certo. Afinal, Deus nunca nos desamparou.
Sobre o dia 15 de fevereiro de 2022, uma certeza permanece: são lágrimas que nunca secam, pois, a sensação é que aquele dia nunca terminou.
