Editorial

Sem o controle dos cidadãos, não é possível combater os danos ambientais

A crise climática não é mais uma ameaça futura; é uma emergência atual. Ainda assim, muitos governantes insistem em discursos vazios enquanto fecham os olhos para o óbvio: sem políticas locais sérias, não haverá futuro sustentável. Foi exatamente isso que o Papa Leão XIV reforçou na abertura da Conferência Espalhando Esperança, em Castel Gandolfo.

O Pontífice foi direto: “a ecologia integral só pode ser alcançada por meio de uma conversão do coração”. Ou seja, não basta tecnologia, nem apenas leis; é preciso mudar a mentalidade. Mas essa conversão só ganha corpo quando se traduz em escolhas concretas, especialmente no nível municipal. O Papa deixou claro: “a legislação municipal pode ser mais eficaz se houver acordos entre as populações vizinhas para apoiar as mesmas políticas”.

A pergunta que se impõe é: quantos prefeitos e vereadores estão, de fato, comprometidos com essa missão? Quantos cidadãos realmente fiscalizam o que acontece em seus municípios? Não adianta culpar apenas os grandes governos nacionais e internacionais. Como lembrou o Papa Leão XIV, “se os cidadãos não controlarem o poder político – nacional, regional e municipal – não é possível combater os danos ambientais”.

É duro admitir, mas a sociedade também tem sua parcela de omissão. Queremos rios limpos, mas descartamos lixo de qualquer forma. Exigimos mobilidade sustentável, mas defendemos apenas o carro particular. Reclamamos das tragédias climáticas, mas fechamos os olhos para construções irregulares que comprometem encostas e mananciais. O controle social de que fala o Papa não é um conceito abstrato: é responsabilidade concreta de cada cidadão.

Ao mesmo tempo, é inaceitável que gestores públicos se escondam atrás da burocracia ou da desculpa de que “o problema é global”. É global, sim. Mas também é local. É na cidade que se define a coleta de lixo, o tratamento de esgoto, a preservação de áreas verdes, a política habitacional que evita tragédias. Ignorar isso é condenar comunidades inteiras a desastres anunciados.

O recado do Papa Leão XIV não poderia ser mais atual: “a sociedade, por meio de órgãos não governamentais e associações intermediárias, deve pressionar os governos a desenvolver regulamentos, procedimentos e controles mais rígidos”. Se a população não cobra, a política não age. E se a política não age, a Casa Comum continuará sendo devastada.

A verdade é que esperar apenas grandes acordos internacionais é confortável, mas ilusório. A mudança real começa no bairro, na cidade, no município. É hora de governantes e cidadãos deixarem as palavras de efeito e assumirem, de fato, sua responsabilidade. O planeta não aguenta mais desculpas.

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